Naquela memorável manhã sua família teve uma surpresa ao acordar. Pela primeira vez dona Izaleia não estava na cozinha. Ao invés disso ela os esperava na sala de estar, com um sorriso triunfante.

Para qualquer outra família isso não significaria muita coisa, mas era claro o estado de choque em seus rostos.

O espanto deles torna-se bem mais razoável conhecendo dona Izaleia. Uma senhora que já estava neste mundo a 97 anos e passara os últimos 50 destes majoritariamente na cozinha.

Sua rotina era religiosamente igual, como um monge ancião fazendo suas preces diárias nas montanhas. Desde a hora que acordava, que era sempre muito cedo, até a hora que ia dormir, que era sempre bem tarde, dona Izaleia estava aperfeiçoando sua arte.

Pudim após pudim, era difícil saber quantos ela fazia por dia. O Pudim era feito, escrupulosamente analisado (com ferramentas que ela mandara fazer sob medida para este fim) e ultimamente rejeitado e descartado.

Izaleia não competia com as vizinhas ou amigas, ela não tinha tempo pra checar os pudins que outra pessoas faziam, estava ocupada fazendo pudins.

Pilhas de caixas com os pudins enchiam a dispensa. A família já havia se acostumado a dar os pudins a vizinhos e conhecidos, já que as vendas não davam conta da quantidade produzida diariamente. Era difícil dizer se o negócio estava lucrando ou sequer pagando os ingredientes que alimentavam a obsessão de dona Izaleia.

Nos últimos anos a família estava particularmente preocupada, já que, ao invés de diminuir, a produção de pudins por dia continuava a gradualmente aumentar.

Até que um dia, aquela manhã histórica se decorreu.

Dona Izaleia estava em pé, do outro lado da mesa, como quem já havia ensaiado essa cena várias vezes. Seus olhos, claramente marcados por uma noite mal dormida, já quase não abriam em meio as rugas e ao sorriso. Ela, uma senhorinha da altura do neto mais novo que tinha uns 13 anos na época, era uma visão colossal e amedrontadora.

Em um único movimento extremamente gentil, porém de um poder imenso, ela colocou a bandeja que segurava na mesa. Apesar do extremo silencio (acentuado por todos estarem segurando o folego) todos sentiram a casa estremecer quando a bandeja tocou a mesa.

Sem tirar os olhos dela (nem mesmo pra piscar) viram dona Izaleia aumentar o sorriso em seu rosto e dar um leve suspiro. Foi como se naquele suspiro ela tivesse se aliviado de um peso que carregava a vida toda. Todo seu corpo relaxou e suspirou junto.

Foi então, após se recuperarem do choque e voltarem a seu sentidos, que toda a família viu:

O PUDIM.

Alguns relatos da história dizem que Izaleia morreu ali mesmo, após entregar o pudim, outros dizem que ela pereceu pouco tempo depois.

Apesar dos relatos incongruentes entre si e os prováveis exageros e romantizações, a quantidade de relatos de fontes distintas tornam inegáveis alguns fatos e a veracidade do causo.

Portanto, aqui registro e atesto como testemunha.

Naquela cidade inegavelmente uma lendária senhora de nome Izaleia dedicou a maior parte de sua vida a fazer pudins, e, em uma manhã mostrou a sua família a culminação do projeto de sua vida. Seu Magnum opus, algo que não considero justo chamar pelo mesmo nome do que nós mortais chamamos “um pudim”. E assim a lenda foi criada.

Notas do Autor

Eu recebi a imagem do pudim de uma amiga numa conversa casual. Ela obviamente achando interessante e num tom alegre, porém a imagem me deixou perplexo e de certa forma triste.

Tendo eu já tentado fazer pudins e sabendo a dificuldade de fazer o dito cujo sair com uma aparência decente, o primeiro pensamento que tive ao ver a imagem é de que a pessoa que o fez é realmente boa nisso, provavelmente alguém que praticou muito.

Talvez eu apenas seja bem ruim na cozinha (ainda estou aprendendo, um dia farei um pudim assim, marquem minhas palavras) e estivesse pensando de mais sobre um pudim que saiu bonito. Sendo esse o caso ou não escolhi seguir a linha de raciocínio de que esse pudim foi o resultado de alguém dedicando bastante tempo em conseguir fazer um pudim tão bonito.

E ai vem o motivo da supracitada leve tristeza. Imagine a alegria que a “dona Izaleia” sentiu ao completar o pudim que sempre quis. Sentir que toda sua vida teve um propósito do qual você se orgulha, imagino que foi assim que Izaleia se sentiu. Não consigo imaginar alegria melhor.

Não tenho certeza se um dia serei capaz se me sentir tão orgulhoso da minha vida quanto a nossa heroína se sentiu quando terminou O Pudim. E se eu não for capaz de chegar nesse ponto, pra que tentar?

Veja, não falo aqui de me comparar com os outros.

“ela não tinha tempo pra checar os pudins que outra pessoas faziam, estava ocupada fazendo pudins”

Não tem a ver com com ser melhor que os outros, essa jamais foi a preocupação dela. Tem a ver com ser o melhor que você pode ser. E tenho muito medo de não conseguir isso.

Esse conto absurdo e, espero que, engraçado foi feito pra expressar o medo que tenho de não conseguir chegar aonde eu quero na minha vida.

Nunca imaginei que a foto de um pudim poderia ser algo tão amedrontador.