Ei Ed, desculpa não ter entrado em contato por tanto tempo, aconteceram várias coisas (várias mesmo). Vou tentar resumir:
Conheci uma pessoa, Mary, e bastante coisa mudou desde então. Vou começar pelo dia que nos conhecemos.
Aquele dia foi bem “peculiar” por falta de uma palavra melhor pra descrever. Estava no balcão como de costume quando ela entrou na sala de espera. Obviamente ela não era uma funcionária como as outras pessoas que eu atendo, tirando as roupas que claramente não eram um uniforme, tinha algo completamente diferente sobre ela, algo “amarelo”.
Eu tomei um susto quando, olhando ao redor como quem procura algo, ela parou o olhar diretamente na minha direção com uma expressão de quem encontrou o que queria enquanto vinha diretamente ao balcão. A essa altura você já deve imaginar que eu já estava pensando que ia ser um saco lidar com ela, mas ela simplesmente veio até o balcão me perguntou meu nome e, após confirmar minha resposta disse “ah, então te encontrei”, me deu um sorriso e foi embora.
Achei aquilo muito estranho, mas não era o primeiro cliente esquisito que já tive no trabalho. Não dei muita importância na hora, honestamente só estava aliviada de não ter acontecido nada complicado, e segui com meu expediente.
E ai que fica realmente interessante. Depois do expediente me chamaram pra falar com a conselheira, lá no nosso abrigo. Apesar de ter achado um pouco estranho, já que as ela não fazia isso a uns meses, imaginei que era só mais burocracia.
A moça estranha (spoiler spoiler, é a Mary) encontrou comigo na entrada. “Encontrou” não é bem a forma correta de descrever, ela me puxou do nada quando eu passei por um beco, foi como se ela tivesse surgido do nada. Ela me explicou um pouco a situação: segundo ela eu tenho uma habilidade que a escola dela estava interessada, mas como eu já estava num contrato com a fábrica ela ia ter que usar métodos “pouco ortodoxos” (palavras dela) pra conseguir me matricular. Ela me olhou com um olhar cheio de expectativa e perguntou “E ai, o que acha?”. Ela viu que eu claramente não estava comprando muito a história e disse, dessa vez com um olhar um pouco irritado, “Olha, essa é uma oportunidade rara, as vagas no instituto são super concorridas, e…” ela puxou a carta secreta dela “aposto que você quer saber mais sobre porque você vê coisas que ninguém mais vê…”
Ed, você sabe que eu só aceitei ir pra fábrica porque não tinha mais pra onde ir, nunca liguei muito pra aquele lugar. Contanto que eu pudesse ler meus livros e tivesse mais liberdade de ir aonde eu quiser do que no orfanato eu teria aceito qualquer coisa, mas, essa história toda parecia muito incerta. Mas Ed, quando ela falou dos meus olhos eu não conseguir deixar pra lá, quer dizer, como ela sabia dos meus olhos? Você é a única pessoa pra quem eu contei disso, e eu sei que você não ia sair contando por ai. Eu já estava me virando pra ir embora quando ela falou dos meus olhos, por um meio segundo eu pensei por várias horas até decidir e falar pra ela “Ok, o que eu tenho que fazer?”. Ela só disse pra eu concordar com o que ela dissesse, assim, sem nenhuma explicação. Ela me empurrou em direção a entrada do abrigo e quando eu me virei na direção dela ela havia sumido.
Resumindo, a Mary estava na sala da conselheira me esperando. Depois de algumas perguntas sobre como eu estava indo na fábrica e na escola nova a sra Teresa me explicou a situação. A tal moça disse ser uma tia de segundo grau e queria me adotar (acredita?) e, como a Teresa não achou registro sobre ela nos meus documentos no abrigo, ela queria que eu confirmasse a história. Segundo ela meu contrato com a fábrica limitava o processo de adoção e a Teresa precisava autorizar a adoção e atestar sobre o parentesco.
Antes de eu ter a presença de espírito pra dizer algo a Mary começou a falar “Elleni e os pais dela me visitaram várias vezes quando ela era menor” ela ainda virou pra mim e disse “Naquela época você não parava de falar de como adorava a tia Mary, né Ellin!?”.
Confesso que eu estava me segurando pra não rir da coragem dessa tal de Mary. Mas, Ed, quando eu olhei pra ela, alguma coisa, não sei bem dizer o que, alguma coisa no jeito como ela parecia acreditar na história que estava contando, alguma coisa na expressão alegre e despreocupada dela me fez confirmar a história. Até agora não acredito que fiz aquilo, mas eu virei pra Teresa e disse “Tinha tempo que a gente não se via então eu não te reconheci imediatamente, mas, bom te ver tia Mary”. Depois disso a Mary disse que não tinha entrado em contato antes porque ela não sabia o que tinha acontecido com meus pais, aparentemente ela voltou de viagem de outro país recentemente, honestamente eu não prestei muita atenção no resto da conversa (ainda estava processando o que estava acontecendo).
Então é isso Ed, eu to morando com a Mary agora. Eu tenho um quarto (um de verdade, só meu) e moro numa floricultura (mal posso esperar pra te contar sobre). A viagem foi longa e chegamos aqui já de noite, ela só me resumiu que ela planeja cuidar de mim e em troca eu vou estudar numa escola de magia e ajudar na floricultura. Ela disse que eu tenho que acordar cedo porque ela ia me explicar tudo amanhã de manhã antes da escola então eu tenho que ir dormir.
Amanhã te conto o resto, se cuida. E me fala como estão as coisas por aí qualquer hora.