Foi logo na primeira semana que ela me chamou a atenção. A principio considerei ela parecida com a Lucie, que não tem nenhum interesse em falar comigo (ou qualquer um que não seja a Rose), só em estudar. Porém uma interação que tivemos me deixou curioso.

Esbarrei com ela (de propósito, estava curioso com onde ela ia durante os intervalos) nos fundos do campus. Ela estava lendo um livro, fiquei um pouco decepcionado, esperava algo menos clichê.

Oh! Ei Ellenin.

Matthew

Ela só me respondeu com um aceno de cabeça sem parar de ler. Ela continuava com sua expressão neutra de sempre.

Você não precisa se esconder pra estudar sabia, se estiver com dificuldade com alguma matéria eu posso pedir a Alice pra te ajudar..

Matthew

Claro, tenho certeza que ela ia a-do-rar que pedissem ajuda a ela.

Ellenin

Ela respondeu enquanto deu um riso abafado com um tom de sarcasmo enquanto enfatizava o “adorar”.

Nah, eu não sou do tipo de ficar obcecada com algo que eu obviamente não tenho aptidão.

Ellenin

Por um momento ela tirou os olhos do livro e olhou pra mim com um sorrisinho atrevido checando minha reação.

Pode me chamar só de Ellin, Matt.

Ellenin

Ela disse com uma expressão satisfeita depois de confirmar minha surpresa.

William Blake – Ela virou o livro e me mostrou a capa.

Ellenin

Não imaginava que você era do tipo que lia poesia nas horas vagas

Matthew

Pois é, nem eu. Mas acho que eu poderia dizer que estou “estudando” – Ela deu uma pausa esperando autorização pra continuar.

Você lembra que a aula de ontem foi sobre como as emoções do conjurador influenciam o resultado do feitiço? – Agora já com o livro de lado e olhando pra mim com seu olhar neutro de sempre.

Então, eu imaginei que se eu estudasse mais emoções eu seria capaz de conjurar melhor

Ellenin

Eu não consegui me controlar e dei uma risada. Porém ela só continuou me encarando sem entender o porque eu estava rindo

Então você está “estudando” emoções com poesia?

Matthew

E poesia não é sobre emoções?

Ellenin

E agora ela parecia um pouco irritada.

Não é que ela não tinha expressões, obviamente, eu só não tinha notado porque as expressões dela são extremamente sutis.

A gente continuou conversando por mais alguns minutos. Eu tentei explicar pra ela que não se “estuda” emoções, você tem que sentir elas, enquanto ela argumentava “porque poesia existe então? não são textos sobre emoções”. Inicialmente eu achei que ela era bem mais perceptiva do que eu imaginava, tendo notado a situação da Alice e até me cutucado sobre o Lucas insistir em alquimia, mas agora eu estava começando a achar que ela era uma completa idiota. Trocamos mais algumas palavras sobre poesia, e eu até citei alguns trechos que eu lembro de ter lido e achado interessante (não lembrava de cabeça e olhei no celular na hora) e segui com meu caminho. Assim que eu sai ela voltou para o livro, exatamente como estava antes de eu chegar.

Essa é a Ellenin, ou Ellin como ela disse pra eu a chamar (e acho que eu sou o “Matt” agora né). Capaz de analisar a situação das pessoas ao seu redor, mas totalmente inapta a entender a própria.

Depois disso eu comecei a tentar introduzir ela a turma, ajudar ela a se integrar. O que foi bem fácil, ao contrário da Lucie ela sempre aceitava os convites pra sair com a gente depois da escola, ou se juntar ao nosso grupo de estudos durante as aulas. E ela mesmo começou a se convidar sem a necessidade de eu mediar depois de bem pouco tempo, apesar de que uma certa distancia ainda existia entre ela e o resto da turma, ou melhor, do mundo.

Não é que ela não tem interesse ou quer porém não sabe como socializar, como eu havia presumido. Ela simplesmente parecia não considerar a possibilidade.

De vez em quando eu “esbarrava” com ela quando ela estava em algum canto do campus lendo ou escrevendo (de umas duas semanas pra cá ela começou a escrever poesia também, ela insiste em “estudar” emoções). Ela não parecia incomodada com minha interrupções e a gente bate papo sobre coisas aleatórias (ela curte umas bandas antigas super bizarras) e de vez em quando ela solta algum comentário levemente ácido com tom de piada sobre alguém da turma. Mas eu não sinto maldade no tom dela, só uma curiosidade legitima, quase como alguém estudando um animal desconhecido.

E quando eu começo a me impressionar com a capacidade dela de ler as pessoas ela me lembra de que ela é uma completa idiota:

…acho que foi uma ideia virar seu amigo Ellin.

Matthew

Pera, a gente é amigo? Oh, realmente, faz sentido, a gente é amigo.

Ellenin