Ter autismo te obriga a ter uma perspectiva diferente sobre a realidade. Minha perspectiva em particular me fez começar recentemente a usar o termo “ neurotipia “. Neurotipia é a condição de ser neurotipico, não ter nenhuma condição psiquiátrica.
Toda as pessoas, tendo neurotipia ou não, vivenciam a realidade sob perspectivas completamente únicas. E como a percepção da realidade é sua única forma de experimentar ela, pessoas com com perspectivas diferentes vivem em realidades diferentes.
Duas pessoas experienciam uma mesma informação/experiência/estimulo de maneiras completamente diferentes e podem até depois discordar sobre o que aconteceu. Como um admirador do método cientifico eu acredito que existe uma realidade objetiva, porém, ela é inacessível a nós, seres subjetivos.
Como conciliar essa distancia enorme de viver em realidades diferentes e conviver com outros seres humanos? Pessoas com neurotipia tem mecanismos para conviver mesmo com essa distancia incrível, eu não. Um PCN (pessoa com neurotipia ) consegue, mesmo sem entrar na realidade do outro, interagir com outros de maneira não destrutiva (a maioria das vezes) usando uma série de ferramentas que a condição lhe proporciona.
Por não ter neurotipia , não estou armado com tais mecanismos e ferramentas, tais como: leitura de expressão facial; reconhecimento de tonalidade; filtragem sensorial; intuição para normas de comunicação; etc. Sem esses mecanismos que a PCN tem, sou obrigado a imaginar e me submergir completamente nas outras realidades toda vez que preciso interagir com outras pessoas.
Essa aproximação tem seus benefícios. Os mecanismos das PCN ‘s, apesar de muito úteis para leitura e interpretação de outras realidades, se limitam a uma leitura superficial. Por me inserir completamente acabo com uma leitura mais rica em detalhes, mesmo que eles nem sempre sejam úteis. A desvantagem é o quão mais caro cognitivamente é fazer esse exercício.
Por outro lado, estudar sobre e interagir com a PCN é um grande desafio. Não só existe bem pouca literatura sobre a condição e suas particularidades, como o cérebro humano não foi feito para lidar com tarefas tão árduas tal como interagir com uma PCN , tarefa essa bem mais estressante do que uma interação social normal.
Porém, durante meus estudos de PCN , acredito que adquiri alguns insights bem úteis.
Uma coisa que percebi bem cedo é que existe um limite para com quais outras PCN uma PCN consegue interagir. O repertorio social supramencionado, apenas funciona com realidades não muito diferentes. Cada PCN tem um limite diferente, como é normal em todas as condições psiquiátricas, mas, no geral, quando as realidades tem uma massa critica de diferenças o repertorio da PCN para de funcionar por completo e a interação se torna destrutiva.
Na abordagem normal, de uma pessoa sem neurotipia , você entra por completo na realidade das pessoas com quem interage. O que torna fascinante a incapacidade de PCN ‘s de interagir com realidades não similares das suas. Imagino que pessoas com casos mais graves de neurotipia devem ter uma visão sobre as outras pessoas bem mais limitada. É bem interessante imaginar como deve ser a realidade dessas pessoas.
Entretanto, de uns anos pra cá, comecei a adotar uma terceira abordagem, uma abordagem hibrida. Analisando a abordagem das PCN’s e das outras pessoas, se tornou cada vez mais difícil definir qual é mais eficiente. A resposta óbvia pra mim foi começar a aprender e copiar certos comportamentos de PCN’s e e os integrar a minha abordagem da realidade.
Esses problemas de interação só surgem quando nos deparamos em uma interação com uma pessoa portadora de neurotipia , porém, acho necessário fazermos essa reflexão e aprender a acomodar as pessoas que sofrem com essa condição.
Nós, pessoas normais não portadoras de neurotipia , temos uma comunicação bem mais simples e honesta. Justamente por não estarmos armados socialmente como uma PCN a honestidade é o caminho mais eficiente.
Da mesma maneira que aprendi bastante estudando pessoas com neurotipia gostaria que as pessoas com essas condições aprendessem um pouco com os não portadores. Todo esse arsenal bélico pra algo tão simples quanto se comunicar com o outro vira um veneno. A própria condição humana vem com uma série de armadilhas que temos que nos precaver: individualismo, tribalismo, mentalidade de escassez além de toda uma pletora de vieses cognitivos. É bem mas fácil cair nessas armadilhas e acabar fazendo interações destrutivas.
Conversando com algumas vítimas da neurotipia , notei que, por mais que algumas até quisessem, a interação de maneira franca é impossível. Justamente pelas ferramentas sociais que tem, a PCN sabe que ao interagir com outro portador sem as camadas de defesa normalmente armadas corre o risco de ser prejudicada caso o outro use das suas.
Mesmo não tendo sido acometido com a condição, devido a meu estilo de vida sou obrigado a conviver com PCN ‘s e, por isso, me vejo obrigado a propositalmente me envenenar, mesmo achando uma abordagem bem menos eficiente.