dicionário

deixei minha língua se enrolar na sua

meu léxico se encheu de vocábulos a que era alheio

meu dicionário era o mais rico de insultos e abusos

você o completou com todas as ortografias do amar

me vi diante de todo um dialeto rico de novos símbolos e sinais

equipado para uma prosa sem resguardos ou agressões

mas simplesmente de entendimento e aceitação

finalmente aprendi a ler

peso

naquele abraço eu senti todo um peso gigante desaparecer

só então eu percebi o tamanho do peso que eu carregava

mas é pesado de mais te pedir pra carregar esse peso

e é um peso pesado de mais pra carregar sozinho

5 – Carta para o Ed 2

Ei Ed, sou eu de novo.

Desculpa não ter escrito no outro dia como eu disse que ia, esse mês foi bem mais cheio do que imaginava.

Como eu disse eu estudo em uma escola nova agora, “Instituto Garden”. O campus fica no meio da cidade, mas parece que você está em outro país quando entra nele.

No centro do campus tem uma arvore, um Ente (sim, um Ente). E as raízes dele (ou dela, seila) crescem ao redor dos prédios, cobrindo as paredes externas, e nessas raízes varias outras plantas e animais vivem. Olhando de longe o lugar parece uma construção abandonada tomada pela natureza, mas as raízes crescem de maneira surpreendentemente organizada olhando de perto, desviando das passarelas no pátio e das janelas dos prédios e crescendo ao redor das pilastras parecendo ajudar a sustentar o prédio. Na verdade eu acho que as raízes são as pilastras. Eu me sinto num mundo de fantasia andando pelo campus.

As turmas são bem pequenas aqui e só tem outras duas turmas de primeiro ano além da minha. Minha turma tem mais 5 alunos além de mim:

A Lucie é um gênio, daqueles de filme. Ela passa o tempo todo estudando (e pelo que eu vi parecem ser livros de matérias do 3º ano), e as vezes ela fica tão imersa que esquece que está na sala de aula e começa a murmurar sozinha ou da um grito de “Ah! Entendi!” do nada. É hilário, mas ela não parece ter a menor vergonha. Acho que ela teria que perceber primeiro pra ter vergonha. Ela é bem baixa (a menor da turma), o que só torna os comportamentos esquisitos dela mais adoráveis, e tem um cabelo curto escuro.

A Alice é parecida com a Lucie por fora, mas bem diferente quando você olha mais de perto. Ela e a Lucie competem pelo lugar de primeiro aluno da sala, ou melhor, a Alice compete. A Lucie mesmo não parece nem perceber que a Alice está competindo com ela, o que claramente frustra ainda mais a Alice quando ela perde. Ela não parece ter um talento natural ou um interesse fora do comum como a Lucie, mas compensa por isso com esforço. Tanto esforço que eu fico preocupada com ela, ela claramente tá sobrecarregando com isso. Ela é alta e tem um cabelo preto comprido. Ela tem uma expressão séria o tempo todo, só vi ela sorrindo uma vez conversando com a Rose.

A Rose é a única pessoa com quem a Alice conversa (além do mínimo de educação). Você pode dizer que a Rose é amiga de todo mundo (até de mim) ou que a única amiga dela é a Alice, as duas afirmações são igualmente verdade. Ela é bem bonita, além do corpo, ela tem um rosto bem invejável. O cabelo loiro sempre com penteados elegantes só adiciona a aura dela. Ela tá sempre sorrindo e falando com todo mundo, e ela é bem fácil de se conversar, até pra mim. Só quando ela está sozinha com a Alice que eu vejo ela ter expressões diferentes do sorriso de sempre dela, isso me faz pensar que elas tem uma relação especial. Foi você que me disse isso uma vez “A prova que você é minha amiga é que você tá sorrindo agora, você nunca sorri. Amigo é alguém pra quem você mostra expressões que não mostra pra mais ninguém”.

Falando em amigo, eu acho que fiz um (além de você), Matthew. Ele não se destaca muito, ou melhor, se destaca em não se destacar (fiz sentido!?). Ele é alto e de pele clara. Parecido com a Rose ele consegue interagir com todo mundo, mas a maior parte do tempo fica na dele. Assim como eu ele gosta de observar as pessoas, mas ele faz algo que eu não costumo fazer: interferir. Dia sim dia não Alice e Rose “brigam” e quando as duas demoram de mais pra fazer as pazes ele sorrateiramente começa uma conversa com uma das duas e no meio inclui a outra, só pra sair e deixar as duas conversando como se nada tivesse acontecido. A gente costuma falar sobre isso e rir dessas bobagens que acontecem entre as pessoas da turma. Pelo stress que é se manter no currículo esse tipo de coisa acontece mais do que numa turma normal.

E falando do Matthew eu tenho que falar do melhor amigo dele, o Lucas. Ele é de uma família importante, os Gallagar, uma família de alquimistas. Mas o pobre coitado tem dificuldade até em lembrar o nome dos elementos mais comuns da tabela periódica. Assim como a Alice ele compensa isso com esforço, mas não parece ser algo que estressa ele, ele não parece ressentir ter que seguir o negócio da família.

Bem, essa é minha turma. É uma galera bem esquisita (o que eu acho que é esperado considerando o tipo de escola que eu estou) mas todos são boas pessoas se você parar pra entender.

Ah, graças ao Matt eu comecei a falar mais e até sair com eles. Ou melhor, eu descobri que eu gosto de falar/sair com eles.

As vezes eu o Matt e o Lucas vamos num arcade (sim, ainda existem, outra nova descoberta) jogar algo. É bem divertido conversar com a Lucie sobre magia, apesar de ser cansativo tentar seguir o ritmo dela quando ela fica empolgada com algo. A Alice compartilha meu hobbie de ler (se bem que no caso dela não parece ser um hobbie, parece trabalho) então eu sempre peço recomendações a ela tanto sobre leitura didática quanto por diversão. Pedir ajuda a Lucie pra estudar não funciona muito, o jeito como ela aprende não se aplica a gente normal, e a Alice fica bem satisfeita quando eu procuro ela ao invés da Alice por ajuda. E a Rose é sempre uma companhia agradável, eu fico realmente surpresa com a quantidade de assuntos que ela consegue conversar, parece que existem 1000 pessoas com gostos diferentes dentro dela.

Enfim, minha turma parecia bem “cinza” no primeiro dia de aula, mas depois de falar mais com eles eu comecei a ver que existem outras cores misturadas naquele cinza que eu não via antes.

To me divertindo bastante Ed, espero que você esteja bem. Eu sei que é complicado pra você mas tenta responder quando der. Se cuida!

4 – Matthew

Foi logo na primeira semana que ela me chamou a atenção. A principio considerei ela parecida com a Lucie, que não tem nenhum interesse em falar comigo (ou qualquer um que não seja a Rose), só em estudar. Porém uma interação que tivemos me deixou curioso.

Esbarrei com ela (de propósito, estava curioso com onde ela ia durante os intervalos) nos fundos do campus. Ela estava lendo um livro, fiquei um pouco decepcionado, esperava algo menos clichê.

Oh! Ei Ellenin.

Matthew

Ela só me respondeu com um aceno de cabeça sem parar de ler. Ela continuava com sua expressão neutra de sempre.

Você não precisa se esconder pra estudar sabia, se estiver com dificuldade com alguma matéria eu posso pedir a Alice pra te ajudar..

Matthew

Claro, tenho certeza que ela ia a-do-rar que pedissem ajuda a ela.

Ellenin

Ela respondeu enquanto deu um riso abafado com um tom de sarcasmo enquanto enfatizava o “adorar”.

Nah, eu não sou do tipo de ficar obcecada com algo que eu obviamente não tenho aptidão.

Ellenin

Por um momento ela tirou os olhos do livro e olhou pra mim com um sorrisinho atrevido checando minha reação.

Pode me chamar só de Ellin, Matt.

Ellenin

Ela disse com uma expressão satisfeita depois de confirmar minha surpresa.

William Blake – Ela virou o livro e me mostrou a capa.

Ellenin

Não imaginava que você era do tipo que lia poesia nas horas vagas

Matthew

Pois é, nem eu. Mas acho que eu poderia dizer que estou “estudando” – Ela deu uma pausa esperando autorização pra continuar.

Você lembra que a aula de ontem foi sobre como as emoções do conjurador influenciam o resultado do feitiço? – Agora já com o livro de lado e olhando pra mim com seu olhar neutro de sempre.

Então, eu imaginei que se eu estudasse mais emoções eu seria capaz de conjurar melhor

Ellenin

Eu não consegui me controlar e dei uma risada. Porém ela só continuou me encarando sem entender o porque eu estava rindo

Então você está “estudando” emoções com poesia?

Matthew

E poesia não é sobre emoções?

Ellenin

E agora ela parecia um pouco irritada.

Não é que ela não tinha expressões, obviamente, eu só não tinha notado porque as expressões dela são extremamente sutis.

A gente continuou conversando por mais alguns minutos. Eu tentei explicar pra ela que não se “estuda” emoções, você tem que sentir elas, enquanto ela argumentava “porque poesia existe então? não são textos sobre emoções”. Inicialmente eu achei que ela era bem mais perceptiva do que eu imaginava, tendo notado a situação da Alice e até me cutucado sobre o Lucas insistir em alquimia, mas agora eu estava começando a achar que ela era uma completa idiota. Trocamos mais algumas palavras sobre poesia, e eu até citei alguns trechos que eu lembro de ter lido e achado interessante (não lembrava de cabeça e olhei no celular na hora) e segui com meu caminho. Assim que eu sai ela voltou para o livro, exatamente como estava antes de eu chegar.

Essa é a Ellenin, ou Ellin como ela disse pra eu a chamar (e acho que eu sou o “Matt” agora né). Capaz de analisar a situação das pessoas ao seu redor, mas totalmente inapta a entender a própria.

Depois disso eu comecei a tentar introduzir ela a turma, ajudar ela a se integrar. O que foi bem fácil, ao contrário da Lucie ela sempre aceitava os convites pra sair com a gente depois da escola, ou se juntar ao nosso grupo de estudos durante as aulas. E ela mesmo começou a se convidar sem a necessidade de eu mediar depois de bem pouco tempo, apesar de que uma certa distancia ainda existia entre ela e o resto da turma, ou melhor, do mundo.

Não é que ela não tem interesse ou quer porém não sabe como socializar, como eu havia presumido. Ela simplesmente parecia não considerar a possibilidade.

De vez em quando eu “esbarrava” com ela quando ela estava em algum canto do campus lendo ou escrevendo (de umas duas semanas pra cá ela começou a escrever poesia também, ela insiste em “estudar” emoções). Ela não parecia incomodada com minha interrupções e a gente bate papo sobre coisas aleatórias (ela curte umas bandas antigas super bizarras) e de vez em quando ela solta algum comentário levemente ácido com tom de piada sobre alguém da turma. Mas eu não sinto maldade no tom dela, só uma curiosidade legitima, quase como alguém estudando um animal desconhecido.

E quando eu começo a me impressionar com a capacidade dela de ler as pessoas ela me lembra de que ela é uma completa idiota:

…acho que foi uma ideia virar seu amigo Ellin.

Matthew

Pera, a gente é amigo? Oh, realmente, faz sentido, a gente é amigo.

Ellenin

sobre escrever

quando ninguém mais me quer

eu volto pra você

quando o desejo é incontrolável

eu te uso de novo

desculpa por só lembrar de você quando preciso descarregar

desculpa por te esquecer antes da noite acabar

em madrugadas de insônia

bato de novo em sua porta

em amanheceres solitários

te deixo de novo na memória

e você merece tão mais,

eu nem consigo mais pedir desculpa

um dia talvez eu mude

até lá, você é minha fuga

Notas do Autor

Eu devia levar o hobby de escrever a sério, eu só escrevo quando to inquieto. Hoje eu me senti inquieto e queria precisava escrever algo, mesmo sem saber o que. Eu me senti meio sujo, como se estivesse usando alguém pra sexo.

Esse texto é sobre essa emoção, acho que todo mundo sente ela as vezes. Se eu dedicasse o tempo a esse hobby e praticasse mais escrita, eu provavelmente ia melhorar. Mas eu só uso como válvula de escape e nunca me dedico, exatamente como um cara com medo de um relacionamento sério.